por
Bruno Shahini
5 min
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Publicado em
30/3/2025
Os mercados globais foram dominados por preocupações relacionadas às políticas tarifárias americanas anunciadas pelo presidente Trump, especialmente a sobretaxa sobre carros importados e possíveis retaliações previstas para 2 de abril. Essa tensão aumentou a volatilidade e gerou movimentos de aversão ao risco, com valorização do dólar frente às moedas emergentes, incluindo o real, e queda nos índices acionários internacionais.
No Brasil, o destaque ficou para a ata mais hawkish do Copom, indicando possíveis novos aumentos da Selic já a partir de maio, o que ajudou a limitar perdas do real frente à moeda americana em relação aos pares emergentes. Indicadores mistos dos EUA, incluindo uma queda maior que o esperado na confiança do consumidor e expectativas preocupantes sobre inflação de longo prazo, intensificaram o receio de um cenário de desaceleração econômica combinado com inflação elevada. Diante disso, investidores buscaram segurança em ativos como ouro e títulos do Tesouro americano.
O mercado opera novamente no modo de aversão ao risco, com o cenário ainda incerto pesando negativamente na sessão de hoje. A tensão sobre a implementação das tarifas continua sendo o principal fator de risco, com investidores ainda em “modo de espera”, aguardando os anúncios sobre tarifas recíprocas previstos para 2 de abril – data que o presidente Trump denominou como “Dia da Libertação”. No campo dos dados econômicos, foi divulgado o PCE, indicador de inflação considerado o preferido pelo Federal Reserve (Fed). Sem surpresas negativas, o índice veio em linha com as expectativas, mostrando alta de 0,3% no mês. No entanto, outros dados econômicos despertaram preocupação, especialmente aqueles relacionados à confiança do consumidor norte-americano e às expectativas de inflação de longo prazo. Esses fatores contribuíram para a piora do sentimento de mercado, intensificando o receio de um cenário de desaceleração econômica combinado com inflação elevada nos Estados Unidos. Diante de um cenário externo adverso, observamos investidores buscando proteção em ativos considerados “porto seguros”, como ouro e títulos do tesouro americano. A volatilidade externa impulsiona a valorização do dólar frente ao real e também às demais divisas emergentes. Fatores técnicos locais também entraram em cena, como o aumento no volume de contratos futuros de dólar negociados na B3 às vésperas do fechamento da PTAX de março.
O dólar opera em alta na sessão de hoje, registrando significativa volatilidade intradiária. A incerteza continua sendo a “constante” nos mercados internacionais após o anúncio feito ontem por Trump, impondo uma sobretaxa de 25% sobre carros importados pelos EUA, além das tarifas recíprocas americanas, que serão anunciadas na próxima semana. Os índices dos mercados de ações na Ásia sofreram correções expressivas, com as bolsas de Tóquio e de Seul fechando em forte queda, pressionadas queda das principais montadoras japonesas e sul-coreanas. Nos Estados Unidos, os mercados acionários se comportaram de forma errática em reação ao anúncio de Trump, iniciando o dia em queda e apresentando recuperação modesta das perdas ao longo da tarde. No ambiente doméstico, a notícia relevante foi o IPCA-15 do mês de março, que apresentou avanço menor que as expectativas do mercado, contribuindo para a queda dos contratos de juros ao longo de toda a curva. Adicionalmente, o Relatório de Política Monetária divulgado hoje mostrou uma comunicação firme do Banco Central, reforçando o compromisso da autoridade monetária com a ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Apesar da alta do dólar, o real apresenta um comportamento mais estável do que as moedas de outros países emergentes, influenciado principalmente pelo noticiário local positivo e pela continuidade do fluxo financeiro para o Ibovespa.
O noticiário sobre tarifas continua dominando o sentimento do mercado. O presidente Trump deve anunciar ainda nesta tarde tarifas sobre automóveis, enquanto o prazo para o anúncio das tarifas recíprocas, previsto para 2 de abril, se aproxima. Outro fator que pesa sobre os mercados hoje é a ampliação pelos EUA da "lista negra" de empresas chinesas de tecnologia. As sinalizações vindas da Casa Branca hoje reduziram as esperanças de uma postura mais branda nas políticas comerciais do governo Trump 2.0 em relação à política tarifária. Além disso, o presidente do Fed de St. Louis declarou que as incertezas geradas pelas tarifas podem levar o banco central americano a manter as taxas de juros mais altas por mais tempo. Esse cenário de maior aversão ao risco global contribui para a valorização do dólar e a queda nos índices acionários americanos nesta sessão
O dólar registra um forte movimento de queda frente ao real, após três sessões consecutivas de alta. Esse movimento é impulsionado pelas notícias veiculadas no fim de semana, sugerindo uma possível flexibilização das tarifas comerciais por parte da administração Trump. A perspectiva de uma política tarifária mais moderada e previsível contribuiu para o retorno do apetite por risco dos investidores, refletindo-se positivamente nos principais índices acionários americanos, que encerraram ontem com ganhos expressivos, acompanhados por uma redução acentuada do índice VIX. Na sessão de hoje, a surpresa veio com a ata do Copom que, na interpretação do mercado, apresentou um tom mais hawkish. O documento sinalizou claramente a possibilidade de um novo aumento da taxa Selic já na próxima reunião de maio, sem descartar uma elevação adicional na reunião seguinte, em junho. O Banco Central destacou ainda que manterá os juros em patamares elevados pelo tempo necessário para assegurar a convergência da inflação à meta. Além do ambiente internacional mais favorável, os dados econômicos divulgados nos Estados Unidos também contribuíram para a valorização do real nesta sessão. O índice de confiança do consumidor americano apresentou queda acima do esperado em março, marcando o quarto mês consecutivo de retração, enquanto os dados sobre o mercado imobiliário também vieram abaixo das expectativas. Esses indicadores levaram a uma redução nos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, o que, associado ao tom mais rigoroso do Copom, ampliou as expectativas sobre o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, sendo um dos fatores que deu suporte para a valorização do real, assim como um ambiente de maior apetite por risco nos mercados internacionais pelo lado de uma expectativa de desfecho positivo pelo lado das tarifas.
A sessão de hoje é marcada pela continuidade do sentimento de aversão ao risco no exterior, com os índices acionários dos EUA encerrando majoritariamente em queda. A incerteza em relação ao cenário macroeconômico, gerada pelas políticas tarifárias implementadas pelo presidente Trump e pelas possíveis medidas retaliatórias dos países afetados, segue impactando negativamente o humor dos mercados internacionais. Com isso, os índices norte-americanos registram a quinta semana consecutiva de baixas. Na ausência de catalisadores positivos na sessão atual, o real acompanha o tom dos mercados externos, que apresentam fortalecimento do dólar, especialmente frente às moedas emergentes. O movimento de alta de hoje reflete também ajustes técnicos de posições locais, ressaltando-se que, apesar da valorização no dia de hoje, a moeda norte-americana encaminha-se para a terceira semana de queda em relação ao real.
Bruno Shahini
Com 9 anos de experiência no mercado financeiro, atuou na Votorantim Asset e no Banco Daycoval, é economista formado no Insper e possui as certificações CFP® (Certified Financial Planner) e CGA (Gestão de Carteiras ANBIMA)
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