Para onde vai o dólar? Tarifas, Trump e os movimentos recentes do câmbio

Guerra Comercial: Como a Lei de Newton guia as Tarifas de Trump

por

Bruno Shahini

7 minutos

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Publicado em

18/3/2025

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Moedas de mercados emergentes são influenciadas por uma infinidade de fatores. Dentre eles, podemos citar fundamentos macroeconômicos, fluxos financeiros e riscos geopolíticos. Entre esses fatores, destaca-se a balança comercial de um determinado país. Países com superávits comerciais consistentes, especialmente exportadores de commodities ou manufaturados, tendem a ter suas moedas valorizadas devido ao ingresso líquido de divisas comerciais. Por outro lado, economias com déficits comerciais expressivos estão no lado oposto: precisam converter moeda local para cobrir importações, elevando a dívida externa (ou uso de reservas) e são mais vulneráveis à desvalorização. Esses desequilíbrios frequentes tornam as moedas emergentes mais suscetíveis a mudanças no cenário internacional.

No entanto, a determinação das taxas de câmbio também é influenciada por fatores como sentimento do mercado internacional, credibilidade de bancos centrais e da política monetária e ao nível de risco institucional que um governo representa sob a ótica dos investidores internacionais.

Para uma compreensão completa das taxas de câmbio, fez-se necessário entender também a dinâmica dos fluxos de capital e investimentos vindo do exterior. Esses fluxos são os mecanismos pelos quais mercados emergentes frequentemente atraem entradas de capital (investimento estrangeiro direto, investimentos em portfólio, empréstimos) durante períodos globais de maior apetite por risco. Esses fluxos se tornam elementos-chave que podem fortalecer as moedas locais, à medida que a demanda dos investidores globais pelos ativos do país aumenta.

Emergentes em foco

O cenário econômico atual possui algumas nuances que estão favorecendo os mercados emergentes e dando suporte à valorização de suas moedas este ano. A política do governo Trump atual está pautada em taxas de importação com os parceiros comerciais com os quais os EUA têm déficits elevados na balança comercial (importam mais produtos do que exportam). Nesse sentido, o foco das tarifas tem sido em produtos de países como Canadá, México, União Europeia e China. 

A escolha desses países para sua política de tarifas não é arbitrária, pois tem respaldo na teoria de comércio internacional. A teoria prevê que o nível de comércio entre países será função positiva do tamanho das economias (PIB) envolvidas na atividade de comércio e negativamente impactada pela distância física entre esses dois países. Curiosamente, essa teoria é chamada de modelo de gravidade do comércio internacional. A razão desse nome é inspirada na lei da gravidade de Newton: assim como a atração gravitacional entre dois objetos é proporcional ao produto das massas de cada um e diminui com a distância, o comércio entre países é proporcional ao PIB de cada país e também diminui com a distância das economias. Portanto, não é coincidência que Trump tenha começado sua política de tarifas com Canadá e México: duas economias grandes no contexto mundial que fazem fronteira com os EUA. O caso da China e da Europa se dá pelo tamanho das respectivas economias, sendo a China atualmente o segundo maior PIB mundial.

Na visão de Trump, desequilíbrios (déficits) na balança comercial dos EUA com outros países prejudicam  a economia americana e suas políticas têm ido no sentido de corrigir essas “distorções”. Podemos ver isso com exemplos numéricos para o ano de 2024, onde a China importou cerca de US$ 164 bilhões em bens dos EUA, mas exportou muito mais, resultando em um superávit de US$ 361 bilhões – constituindo o maior superávit bilateral da China.

Volume de Importações e Exportações EUA - Janeiro 2025

Fonte: U.S. Census Bureau. (2024). U.S. International Trade Data


Efeitos no mercado

No entanto, a forma como a administração de Trump escolheu para tentar corrigir esses desequilíbrios via tarifas de importação tem gerado impactos significativos nos mercados. Os países-alvo das tarifas já declararam que irão realizar tarifas retaliatórias em contrapartida, taxando importações de produtos dos EUA. 

É difícil determinar o impacto e o escopo das políticas tarifárias atualmente, até porque a administração Trump está implementando essa política de forma errática e sem muita previsibilidade. Essa incerteza representa a causa principal para o aumento de volatilidade nos mercados e quedas das bolsas observadas este ano. 

No entanto, a evidência empírica pode nos fornecer algumas pistas do que está por vir. É de se esperar uma diminuição do comércio de bens e serviços dos EUA com o restante do mundo – fato que já se reflete na perda de força do dólar medida pelo índice DXY, que atingiu a mínima de cinco meses. Outro objeto de preocupação é a desaceleração econômica tanto nos EUA, sobretudo, nos países dependentes de exportações para a maior economia do mundo. Por último, mas não menos importante, é que as nações afetadas por tarifas deverão buscar novos parceiros comerciais.

Nesse contexto, podemos ver um redirecionamento dos fluxos de comércio globais das economias desenvolvidas e da China para países emergentes, dentre eles o Brasil. Vale ressaltar exemplos da primeira administração de Trump, que já havia estabelecido tarifas a diversos produtos manufaturados chineses no seu primeiro mandato. Em resposta, o governo chinês implementou tarifas de importação sobre soja e carnes americanas, o que levou a China a substituir os EUA pelo Brasil. Mesmo após a trégua com o “acordo Fase Um” em 2020, a China manteve o Brasil como principal fornecedor agrícola, reforçando os laços.


Para onde vai o dólar?

A reorganização dos fluxos comerciais é um dos canais que pode dar suporte à valorização do real via superávits comerciais no contexto de uma escalada de uma guerra comercial mais ampla. Entretanto, também é válido citar o comportamento dos fluxos internacionais de capital que, como citado anteriormente, é um mecanismo de extrema importância para moedas emergentes. Com um nível de incerteza maior no mercado americano, já refletido nos principais índices de ações este ano, estamos começando a observar um maior fluxo financeiro para ativos de mercados emergentes em um movimento de “rotação” dos fluxos de capital financeiro. A procura por mercados emergentes aumentou e atualmente vemos fluxos estrangeiros direcionados tanto para a bolsa como para a renda fixa. No caso do Brasil, o elevado diferencial de juros em relação às taxas internacionais também contribui para a atração de capital, dando suporte à valorização do real.


Desempenho em 2025 - Dólar; DXY e Cesta de Moedas Latam


Fonte: Factset. Data da Consulta: 18/03/2025



A continuação dessa tendência irá depender em grande medida das condições domésticas no Brasil. Ainda há riscos no horizonte. O encaminhamento da agenda fiscal é de extrema importância para que vejamos atenuações dos prêmios de risco nos ativos brasileiros, especialmente o dólar. Além disso, temos um cenário de inflação persistentemente alta e acima do teto da meta, que exige uma postura firme e uma política monetária restritiva do Banco Central brasileiro. Há ainda efeitos secundários das incertezas globais que podem acarretar uma desaceleração da atividade mundial, o que prejudicaria o crescimento do PIB. As dinâmicas entre esses fatores no longo e médio prazo serão determinantes para garantir a estabilidade dos ativos brasileiros nesse contexto de incertezas.

Bruno Shahini

Com 9 anos de experiência no mercado financeiro, atuou na Votorantim Asset e no Banco Daycoval, é economista formado no Insper e possui as certificações CFP® (Certified Financial Planner) e CGA (Gestão de Carteiras ANBIMA)

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