por
Bruno Shahini
5 min
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Publicado em
27/3/2025
O Banco Central do Brasil mantém centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais. Grande parte desses recursos está alocada justamente em dólares americanos, e não na moeda nacional. Por que isso acontece?
Antes de tudo, é necessário definir o que são reservas internacionais. Basicamente, as reservas internacionais são ativos financeiros mantidos pela autoridade monetária de um país — no caso brasileiro, o Banco Central do Brasil (BCB). Essas reservas oferecem múltiplas vantagens para economias emergentes como a brasileira. Ao longo deste texto, veremos como as reservas cambiais podem funcionar como instrumentos de proteção em períodos turbulentos, ajudando a mitigar efeitos macroeconômicos adversos. Novamente, destacamos a poupança em dólar como um dos pilares da política de gestão das reservas e sua importância estratégica para o Brasil.
Para entender como a balança comercial de um país e a intervenção do Banco Central atuam no sentido de acumular reservas internacionais, trazemos um exemplo. Suponha que um exportador brasileiro de carne realiza uma venda no valor de US$100.000 para uma rede de restaurantes nos EUA. A transação é efetivada por meio de um crédito em dólares na conta da empresa brasileira, que, por sua vez, entrega o produto para a rede norte-americana.
Nesse caso, a transação foi realizada em dólares, colocando a empresa brasileira diante de uma decisão: manter os recursos em dólares ou internalizá-los, convertendo para reais. Se a empresa opta por não manter ativos em moeda estrangeira, preferindo receber o valor em reais, o Banco Central pode realizar essa troca, entregando reais à empresa exportadora e recebendo, em contrapartida, os dólares obtidos na transação. Esses dólares são, então, aplicados pelo BC em títulos de dívida norte-americanos, elevando assim as reservas internacionais brasileiras denominadas na moeda norte-americana.
O acúmulo de reservas também ocorre pela conta de capital. Por exemplo: suponha que um investidor estrangeiro decide adquirir ações ou títulos públicos brasileiros, trazendo dólares para investir no país. Ao internalizar esses recursos, o investidor converte os dólares em reais no mercado local. Novamente, o Banco Central pode intervir, adquirindo os dólares disponibilizados pelo investidor estrangeiro, emitindo reais em troca. Esses dólares são incorporados às reservas internacionais, ampliando o estoque de ativos externos do país.
Apesar de adotar formalmente uma política de câmbio flutuante, o Banco Central do Brasil frequentemente “nadou contra a corrente” dos fluxos de capital para acumular reservas. Na prática, isso significa que, durante períodos de forte investimento estrangeiro ou superávit comercial, o BCB comprou o excesso de moeda estrangeira (principalmente dólares americanos) no mercado, aumentando suas reservas.
Historicamente, o período de maior acúmulo de reservas do Brasil ocorreu aproximadamente entre 2005 e 2012, quando a abundância de fluxos de capital e o boom das commodities permitiram ao BCB comprar dólares em grande escala. Durante esse período, as reservas brasileiras aumentaram cerca de US$300 bilhões.
As reservas cambiais não ficam paradas “embaixo do colchão”. O BCB opera sob uma política de investimentos clara, que prioriza segurança, liquidez e rentabilidade — nessa ordem. E onde encontrar ativos com estas características? Se você pensou novamente no dólar e, especialmente, nos títulos públicos americanos, acertou em cheio.
Os títulos soberanos formam a espinha dorsal da carteira — cerca de 86% das reservas estavam aplicadas em títulos da dívida soberana (principalmente títulos do Tesouro dos EUA e outros títulos governamentais de alta classificação) em 2023.
Além dos títulos do governo central, o BCB mantém pequenas alocações em títulos de organizações supranacionais (bancos multilaterais de desenvolvimento, etc.) e em títulos emitidos por agências patrocinadas por governos; juntos, esses ativos representavam cerca de 5-6% da carteira.
E assim como clientes da Nomad, o BCB utiliza fundos de índice (ETFs) para obter uma pequena exposição a índices acionários e a títulos corporativos dos EUA, embora esses ativos representem juntos apenas cerca de 2–2,5% das reservas.
O BCB declara explicitamente que um dos objetivos estratégicos de manter reservas cambiais é “transmitir confiança ao mercado de que o país é capaz de honrar seus compromissos internacionais”. Economistas veem esse tipo de “seguro” proporcionado pelas reservas como algo essencial para mercados emergentes como o Brasil, que já enfrentaram crises cambiais no passado.
Paul Krugman observa que a acumulação de reservas após as crises do final dos anos 1990 tornou-se uma estratégia comum entre economias emergentes, funcionando, na prática, como uma forma de os países se protegerem contra uma fuga repentina de capitais decorrentes do comportamento volátil dos mercados internacionais.
No Brasil, manter uma elevado nível de ativos em moedas fortes, em especial o dólar, teve o resultado esperado: as reservas agora superam amplamente a dívida externa de curto prazo do país, tornando muito menos provável uma crise cambial nas quais reservas insuficientes conjuntamente com a alta dependência de financiamento externo desencadeariam um movimento de fuga de capitais e desvalorização do câmbio.
Uma maior previsibilidade macroeconômica vem com externalidades positivas. A evidencia mostra que uma menor volatilidade cambial, sustentada principalmente pelas reservas, fortaleceu a classificação de crédito soberano do Brasil e reduziu os custos de financiamento externo para empresas brasileiras. Ou seja: as reservas facilitaram o acesso do setor privado do Brasil aos mercados de dívida internacional, proporcionando uma importante fonte de financiamento às empresas brasileiras.
Em síntese, a estratégia de gestão das reservas cambiais pelo Banco Central do Brasil — fortemente concentrada em títulos do Tesouro americano e em moedas fortes como o dólar — reflete as prioridades do país em termos de segurança e liquidez. Essa preferência por ativos dolarizados é uma constante nos portfólios das principais autoridades monetárias ao redor do mundo, reafirmando a posição do dólar como moeda de referência global.
Fica claro, portanto, que, se o próprio Banco Central diversifica sua estratégia de investimento adotando ativos dolarizados, não parece recomendável que um investidor concentre todo o seu patrimônio apenas em reais.
Bruno Shahini
Com 9 anos de experiência no mercado financeiro, atuou na Votorantim Asset e no Banco Daycoval, é economista formado no Insper e possui as certificações CFP® (Certified Financial Planner) e CGA (Gestão de Carteiras ANBIMA)
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