por
Danilo Igliori
Paula Zogbi
Nickolas Lobo
5 min.
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Publicado em
4/2/2025
É muito provável que você tenha feito (ou pelo menos escutado) a pergunta que dá título a esta carta mensal em algum momento dos últimos 12 meses. No apagar das luzes de janeiro, ela ficou ainda mais recorrente em fóruns e discussões sobre o mercado. Afinal, o momento atual do mercado americano, especialmente das ações ligadas a tecnologia e Inteligência Artificial, é bolha? Mais importante: se sim, quando vai estourar?
Após dois anos de valorização de mais de 20% do S&P500, e altas ainda mais expressivas para as companhias que compõem o acrônimo BATMMAN Broadcom (AVGO), Apple (AAPL), Tesla (TSLA), Microsoft (MSFT), Meta Platforms (META) , Amazon.com (AMZN), Alphabet (GOOGL) e Nvidia (NVDA), é natural imaginar que os preços podem ter se descolado dos fundamentos. Coletivamente, essas empresas contribuíram com mais de 50% dos ganhos do S&P 500 em 2024, com uma média de aumento de 63%, trazendo temores sobre concentração excessiva do mercado.
O fator DeepSeek evidenciou esse medo, à medida que as notícias de um modelo de linguagem em larga escala (LLM) chinês competitivo fez desabar ações de tecnologia nos EUA na última semana de janeiro. A dúvida que surgiu foi se os patamares de preços atuais estariam assumindo um cenário de crescimento muito acima do razoável para empresas de semicondutores, que vendem os chips que viabilizam essas tecnologias, e big techs, que hoje têm uma grande vantagem competitiva em produtos baseados em IA.
Preocupa ainda mais que o bull market esteja posicionado em um momento sensível do ponto de vista dos juros. As taxas de juros dos EUA seguem em patamares elevados, e a inflação não dá sinais claros de arrefecimento, dificultando a trajetória de cortes pelo Federal Reserve. Especulações sobre possíveis aumentos das taxas de juros trazem ainda mais risco para o mercado, embora a volta do ciclo de aperto monetário não seja o nosso cenário-base.
Diferentemente da bolha das pontocom, que vem sendo usada como exemplo para tentar buscar paralelos com o mercado atual, os valuations elevados atuais são aplicados sobre companhias estabelecidas, que apresentam consistentemente lucros saudáveis e com taxas elevadas de crescimento das receitas. Os fundamentos são sólidos, assim como o crescimento da economia americana. Projeções indicam que a economia dos EUA deve crescer cerca de 2% em 2025, com um aumento estimado de 11,9% no lucro por ação. Enquanto isso, ao mesmo tempo que o novo governo Trump pode trazer novas pressões inflacionárias, ele também promete estímulos importantes ao mercado de capitais e políticas que diminuirão os custos das empresas.
Em relação à concorrência, é natural que novos players aumentem a competitividade em mercados como a IA, e os modelos de LLM são apenas o início do que podemos ver em ganho de competitividade e eficiência. Um aumento na concorrência e no número de patentes relacionadas à IA pode indicar um desenvolvimento saudável do setor, com potencial para novas oportunidades de crescimento e diversificação. Mais eficiência pode gerar mais acesso e aumentar, ao invés de diminuir, a demanda, como bem pontuou Satya Nadella, CEO da Microsoft, ao citar o paradoxo de Jevons em sua primeira manifestação pública sobre a DeepSeek.
Em 2006, Howard Marks cunhou a famosa frase “todos nós compartilhamos a mesma história e a mesma ignorância a respeito do futuro”. As cartas estão na mesa, e não existe conclusão óbvia. O único movimento que não falha é a diversificação: mantenha sua carteira exposta a teses que sejam descorrelacionadas, de acordo com o seu perfil, e você navegará o mercado com mais tranquilidade.
Danilo Igliori
Economista-chefe da Nomad. Professor do Departamento de Economia da FEA-USP, PhD pela Universidade de Cambridge. Foi um dos fundadores da DataZAP, no Brasil já atuou em empresas como BTG Pactual, Unibanco, Vale, Grupo Zap e OLX, e no Reino Unido, em agências internacionais como Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Paula Zogbi
Gerente de Research e Head de conteúdo na Nomad, tem mais de 10 anos de experiência no mercado financeiro, foi head de conteúdo na XP, analista na Rico e jornalista na InfoMoney e EXAME. É graduada em jornalismo pela USP e tem certificação CNPI pela Apimec.
Nickolas Lobo
Analista de Research da Nomad, com 5 anos de experiência no mercado financeiro, com passagem pela Spectra, Banco Modal e mais de 3 anos trabalhando em equities globais, principalmente no mercado americano, na RXZ Investimentos. É graduado em Economia pelo Insper
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